MEMÓRIA DA DITADURA ─ A QUEDA DE DOIS COMBATENTES

 


       O mês de dezembro marca o assassinato do Comandante Bacuri, dia 9, e também da queda de dois combatentes de fibra e muito valor. No dia 5 de dezembro de 1970 foram localizados em um carro, que circulava pelo bairro de Vila Mariana, em São Paulo, Yoshitane Fujimori e Edson Neves Quaresma. Consta que foram localizados por causa de uma placa fria que usavam no carro, mas há também a história de que teriam sido traídos por um agente infiltrado. Nunca acreditei muito nessa última versão, pois serve sempre para explicar o que não se pode explicar.
        O descendente de japoneses, nascido em Mirandópolis, estado de São Paulo, era o Comandante Edgar ou Japa, como eu o conheci. Foi um dos mais dedicados militantes da luta contra a ditadura. Era um operário técnico em eletrônica e passou a fazer parte da luta armada pelo trabalho político de seu colega de profissão Eduardo Collen Leite, o Comandante Bacuri, que fundara a Vanguarda Popular Revolucionária – VPR, junto com vários outros companheiros. Carlos Lamarca, depois comandante dessa mesma Organização Revolucionária contava que o Japa era o melhor atirador que ele havia conhecido. Melhor até do que ele, campeão militar de tiro.
        Foi um militante exemplar, disciplinado e sempre solidário com quem militasse junto a ele. Lembro dele nos contando que viajara para o Rio de Janeiro “ao lado de um japonês velho, conversando em japonês, pois eu sei falar japonês. E ele pensou que eu era japonês”. Ria muito dessa história e nós perguntamos a ele: “Mas, Japa, você tem cara de japonês, fala japonês e não quer que o senhor pense que você é japonês?”. Respondeu rindo muito que “eu sou nissei, não sou japonês. Vocês não sabem a diferença?”. Nós não víamos a diferença.
        Conheci o Edson Neves Quaresma com o nome de guerra de “Plácido” e não sei de um nome mais apropriado para uma pessoas do que esse. Era um cara super calmo, que passava calma aos companheiros, principalmente para mim, que tinha 15 anos quando o conheci. Andava sempre com o Japa e os dois eram sempre simpáticos e prestativos com quem militava e com as pessoas da população, que não os conheciam. Vi uma vez o carro deles parar para o Plácido ajudar uma senhora com um carrinho de feira a subir na calçada.
         O negro Quaresma, nascido em Apodi, estado do Rio Grande do Norte, foi tesoureiro da Associação Nacional de Marinheiro e Fuzileiros Navais, antes do golpe fascista de 1964.
      O carro em que estavam Fujimori e Quaresma foi cercado e metralhado por uma equipe do DOI-CODI de São Paulo na Praça Santa Rita de Cássia. Os dois ficaram feridos assim que metralharam o carro. Como o motor do carro foi atingido e parou de funcionar, Fujimore saiu correndo tentando fugir a pé. Caiu poucos metros adiante e foi capturado vivo para ser torturado na sede do órgão de torturas e assassinatos.
        Quaresma correu ferido por uma rua lateral e caiu sem forças na calçada. Seu corpo ainda com vida foi levado para o centro da praça e dois milicianos do exército brasileiro puxaram seus braços, pisando em seu pescoço para o matar ali mesmo diante da população apavorada com tanta cena de violência. Essa história me foi contada por um motorista de táxi com ponto na praça, quando fui lá para apurar os fatos, por ordem da minha Organização.
      Fujimori foi levado com vida ao Doi-Codi e torturado até a morte. De noite, houve festa,organizada pelo Major Carlos Alberto Brilhante Ustra, com muita bebida e tiros de metralhadora para o ar.
       A memória dos dois e seus exemplos serão sempre lembrados
        Yoshitane Fujimori, presente!
        Edson Neves Quaresma, presente!
        Abaixo a ditadura! No passado e no presente!

        *Ivan Seixas.

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