CRÔNICAS DA REVOLUÇÃO ─ RAZÕES DA DERROTA NA BOLÍVIA

"Somos uns anões encarapitados em ombros de gigantes. Assim vemos melhor e mais longe que eles, não porque nossa vista seja mais penetrante ou nossa estatura maior, mas porque eles nos erguem ao alto e nos elevam à sua altura gigantesca" (Bernard de Chartres).

 Tanto tempo após a morte de Ernesto Che Guevara, já é possível determinar as verdadeiras razões da derrota da campanha guerrilheira de outubro de 1967 na Bolívia?
Quando um gigante desaparece, surgem os anões polemistas e sentenciosos para explicar minuciosamente as razões que tornavam "lógico" este desfecho e os "erros" cometidos pelo gigante em vida. Porém, ainda que tenhamos alguns escrúpulos, é nosso dever nos incorporarmos a essa animada tropa de anões para empreender a desagradável tarefa de explicar o fracasso militar do Comandante Guevara na Bolívia em 1967.
Buscar honestamente as razões para um derrota momentânea só o podem intentar aqueles que dela tenham saído ilesos e não pode haver nisso motivo de orgulho pra ninguém.
Em Ñancahuasu, na encosta andina do sudeste boliviano, num entardecer de março de 1967, no acampamento batizado com o nome de "O Urso", surgiu uma discussão entre um camarada boliviano recém chegado e um camarada cubano, sobre o papel da guerrilha na situação política do país e, especialmente, sobre o papel dos cubanos no seio da própria guerrilha.
"Nossa função (cubana) não é nem sequer a do detonador. O detonador são vocês (bolivianos). Nós somos ainda menos. Somos o fulminante, a delgada capa de fulminato de mercúrio que recobre o explosivo no interior do detonador e serve unicamente para ativá-lo e reforçar seu acendimento" (Che Guevara).
Então o que aconteceu em Ñancahuasu? A deflagração se realizou: a cápsula detonou e voou em pedaços. Contudo a explosão geral não se verificou imediatamente; repercutiu posteriormente como uma bomba de efeito retardado.
Do ponto de vista imediato, seguindo pela metáfora do Che, a falha seria uma colocação inadequada da cápsula e a consequente inexistência de uma mecha capaz de propagar o fogo para as cargas explosivas, ou seja, o detonador não estava em contato físico direto com uma carga real ou suficiente poderosa para provocar a explosão.
 
─ Extraído do livro "A Guerrilha do Che", de Regis Debray.

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